Tio Gilberto

30 de outubro de 2013 | Comentar

Tenha paciência. Esse é um post sobre corrida. Mas antes preciso contar algumas passagens da minha vida.

Houve um tempo em que ele me levava para a Estação Costeira da Embratel que fica próximo ao Encontro das Águas. Eu era uma criança e aqueles dias eram dias de alegria e deslumbramento. Entrar naquela estação era, para uma criança, como entrar numa nave espacial – era assim que eu me sentia, um astronauta na sua nave – tantos botões, luzes de todas as cores e conversas por rádio com comandantes de navios. Para ele era trabalho. Para mim, pura diversão. Olhávamos os passarinhos, ele me ensinava as funções de cada um daqueles botões e luzes e até comer a comida da marmita que levávamos era diversão.

Houve um tempo que eu era um adolescente e ele se tornou o meu melhor amigo. Ia de ônibus para casa da minha namorada no Conjunto Tiradentes e depois, pra não voltar tão tarde de ônibus, ia caminhando dormir na casa dele no Conjunto Petrus. Conversamos sobre coisas da vida. Lembro das vezes que ele me perguntava sobre meus planos profissionais e eu, ainda um pouco confuso, sabia que queria o Direito, mas não tinha certeza dos rumos que seguiria. Ainda bem. Adolescentes não devem mesmo ter certezas. Precisam experimentar a dúvida.

Passei no vestibular, e foi o tempo que ele me levou para uma viagem por Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo, Piracicaba e Salvador.

Quando me formei na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas foi o tempo que ele mais uma vez esteve ao meu lado no lugar aonde deveria estar o meu falecido pai. Foi ele que entregou meu diploma e colocou no meu dedo o anel de formatura que tirei do dedo do meu pai no seu leito de morte.

Houve tempo que estivemos distantes. Mas não houve tempo que ele não me observasse, não acompanhasse as minhas conquistas, não lesse meus artigos, não comesse um peixe comigo quando passava por Manaus.

Aos 55 anos, num tempo em que estávamos distantes, ele parou de fumar e começou a correr. Acompanhei de longe, sem muito interesse. Mas de repente, eu também resolvi promover uma mudança na minha vida. E a corrida também fazia parte dela.

Ele lá. De longe. Observando meus primeiros passos na corrida e vez por outra dando palavras de incentivo. Eu começava como um corredor de 10km e ele já era um maratonista experiente.

Em julho de 2013 resolvi correr a minha primeira maratona. Ele me estimulou, orientou e foi um dos primeiros a me parabenizar por ter completado os 42km.

Chegou o momento de corrermos juntos. A Meia Maratona do Internacional do Rio foi a prova escolhida para esse encontro.

Tive um dia bem cansativo na véspera da prova. Isso me deixou um pouco receoso. Acordamos cedinho. Ele vestia uma roupa engraçada para a corrida, todo combinando peças amarelas e vermelhas, do tênis até a viseira.Tomamos café numa padaria em Copacabana e fomos para a prova.

Ao chegarmos no local da largada, uma chuva torrencial, mas era um momento de muita alegria. Dividiria com ele 21km e cada passou seria o resgate da amizade, do companheirismo e do carinho que sempre marcaram a nossa trajetória. Encontramos amigos de Manaus. Encontrar amigos numa corrida é sempre uma grande e pura confraternização.

Antes da largada preparei o GPS do meu relógio para controlar o ritmo. Meu objetivo era correr os 21km em menos de 2h, já que a primeira meia-maratona que corri em Manaus completei em 2h e 14min.

Foi dada a largada e simplesmente o meu relógio pelo qual eu controlaria o meu ritmo estava com a memória cheia. Sobrava o aplicativo do celular guardado na pochete, mas eu não pegaria durante a corrida. Seria um vôo cego.

Resolvi tentar acompanhar o ritmo dele. Não era muito fácil. Enquanto, eu, com os meus 40 anos, pretendia apenas baixar de 2h, ele, com os seus 60, tinha como objetivo correr em 1h e 39min. Mas o clima ajudava e eu me sentia bem. Então iniciamos num ritmo muito forte para mim e enfrentando logo uma longa subida no início da prova.

Ceguei a ficar um pouco a sua frente. Mas ele logo me passou e eu, enquanto pude, fui acompanhando-o um pouco mais atrás. Não era fácil perdê-lo de vista. Não havia outro corredor com uma roupa combinando da viseira ao tênis em vermelho e amarelo.

A energia e a disposição dele serviam de exemplo, fazia-me mais forte e, surpreendentemente, mais rápido. Lembrava da minha amizade com aquele cara mais velho que eu e que mesmo não tento laços de sangue (ele é casado com a minha tia, irmã do meu pai) sempre esteve presente na minha vida ocupando um pouquinho o lugar do meu pai que Deus tão cedo levou pra perto de si.

Eram passos de uma corrida que contavam como dias da vida. Como na vida, ele ao meu lado, ou um pouco mais frente, mas ainda na minha vista, ou já fora da minha vista, o mais importante é que eu sabia que ele estava lá e que corríamos juntos. Amizades verdadeiras sobrevivem na ausência.

Havia uma parte psicologicamente dura no final da corrida - agravada por estar seu o meu GPS e, portanto, não ter muita clareza de quanto ainda faltava por correr – ao entrar no aterro do Flamengo havia um retorno para os últimos 2,5km até a linha de chegada. O problema é que você via os outros corredores já voltando, mas não via o retorno e correndo parecia que nunca chegaria a ele. Resolvi poupar um pouco para um sprint na reta final.

Com a força da felicidade daquela corrida com o meu velho amigo, entrei na reta de chegada sabendo que ele já completara a prova, mas que torcia por mim. Assim mesmo, como na vida, quando ele, mesmo fora da minha vista, observa meus passos com carinho e afeto de pai e de irmão.

Fiz meu sprint final e cruzei a linha de chegada. No aplicativo do celular, surpreendentes 1h e 49min. Um tempo muito melhor do que me julgava capaz de fazer.

Obrigado, tio Gilbeto. Temos um encontro marcado no dia 26.01.2014 nas Ilhas Canarias. O desafio pra mim será correr pela primeira vez os 42km em menos de 4h. Estaremos juntos.

 

Na corrida como na vida...

22 de setembro de 2013 | Comentar

Estou treinando para correr a Meia Maratona do Amazonas. Serão 3 vezes ida e volta na Ponte Manaus-Iranduba, totalizando 21km. Tenho treinado duro para conseguir mais esse objetivo.

Sábado (17.11.2012) fiz 13km, no percurso duro da Avenida do Turismo, domingo (18.11.2012) foram 15km na Ponta Negra e terça (20.11.2012) 16km na Ponte Manaus-Iranduba. Fora os 10km da Corrida Internacional Cidade de Manaus na quinta (15.11.2012), o treino funcional na sexta (16.11.2012) e os 6km na esteira, com 6 tiros de 500m na velocidade 14, da segunda (19.11.2012).



  

 O calo


Tanta corrida tem seu preço. Um calo enorme no pé. Com a dor durante a corrida, aprendi uma lição.

Na corrida, como na vida, o cumprimento de objetivos tem um preço de sacrifícios. Você sempre pode escolher entre desistir dos seus sonhos ou enfrentar os desafios e pagar os preços. Eu que tirei o verbo DESISTIR da minha gramática da corrida e da vida. Pago os preços e sigo em frente.

Correr com esse calo doeu muito, mas doeria muito mais o sentimento da derrota e da desistência.


Meu irmão



Pro treino de hoje na Ponte mobilizei alguns amigos de corrida, entre eles meu irmão mais novo Rodrigo Ramos. Rodrigão correu bem e praticamente chegou junto comigo que fiz 16km em 1:50:38.

Depois da corrida, eu e meu irmão combinamos de correr juntos os 21km da Meia Maratona do dia 08.12.

Pensei. Mais uma vez a corrida dá lições e imita a vida. Eu e meu irmão vamos correr juntos. Um ajudando o outro. Como sempre foi na vida agora será na corrida.

E assim vou seguindo meu aprendizado. Cada vez mais convicto de que a corrida vem mudando a minha vida, me ensinando muitas novas lições e aflorando bons sentimentos.

Foco e Disciplina

21 de outubro de 2012 | Comentar

Na corrida, como na vida, não existem limites para quem tem foco e disciplina. A fórmula é simples: FOCO + DISCIPLINA = SUPERAÇÃO DE LIMITES + FELICIDADE.

Na vida e na corrida sua meta não pode ser tão difícil que não possa ser alcança e nem tão fácil que possa ser alcançada sem sacrifício. A meta fácil gera comodidade e desleixo. A impossível gera desestímulo e degrada a sua autoestima. Qualquer um desses dois caminhos, certamente, o afastará dos seus objetivos.

Quando falo de meta impossível. Estou falando daquela fisicamente inatingível naquele estágio do treinamento. Se na primeira semana de treino eu tentar correr uma maratona, óbvio que estou fadado ao fracasso.

O efeito disso é sempre perigoso porque quem age assim tende a desistir na primeira tentativa.

Ou seja, a impossibilidade da meta tem a ver com o momento e, portanto, isso não quer dizer que amanhã, o que parecia impossível não passe a ser uma possibilidade concreta. 

Não é correto querer correr uma maratona na primeira semana, mas também não é correto não ter uma maratona como objetivo a longo prazo. Basta ter consciência de que etapas precisam ser cumpridas.

Já a meta fácil é aquela muito aquém das suas possibilidades naquele momento. Se você pode correr 5km e só corre 2km, você vai acabar desistindo. É o sacrifício e a sensação de superar limites que nos faz querer mais e mais.

Assim, a meta deve está sempre um pouco acima do que parece ser seu limite atual, mas nunca tão acima que você não possa alcançá-la.
Programe a sua mente

A atividade física deve ser algo prazeroso e não um estorvo. Correr ou praticar algum esporte não pode ser um peso que você carrega na vida.
Programe a sua mente e todo o resto acontecerá.

Quando programei minha mente para a corrida e para alcançar meus objetivos físicos, o corpo foi acompanhando e tudo ficou mais fácil. 
Acordar cedo, por exemplo, que era um sacrifício, passou a ser algo automático. Acordo cedo todo dia  porque a mente está programada e o corpo precisa de atividade física. Hoje o sacrifício é perder um dia de treino.

Assim, FOCO é consequência daquela DECISÃO que tratei no post passado. Se você tomou a DECISÃO de que quer mudar de vida e ter uma relação mais sadia com o seu corpo, você certamente terá FOCO nos seus objetivos e metas. Assim é na corrida e assim é na vida.

Mas, além do FOCO, é preciso DISCIPLINA. Na sociedade repressora que vivemos, a palavra disciplina é ouvida com um conteúdo autoritário. Mas não é dessa disciplina imposta por outros que estou falando, estou falando de uma autodisciplina, imposta por você a você mesmo e sem sofrimento.
Estou falando de algo que você quer fazer, tem prazer em fazer e que, portanto, fará. 

Organize seu dia e terá tempo pra tudo.

A turma adora dizer que não tem tempo pra atividade física, que trabalha muito, que tem que cuidar da família.

Uma dica. Você terá muito mais qualidade no seu tempo de trabalho ou de convivência familiar, se você estiver bem com o seu corpo. Pode parecer contraditório, mas você terá muito mais disposição para o trabalho e qualidade na convivência familiar, depois de uma corrida, uma malhação ou a prática de um esporte.

Assim, a questão é de produtividade. Estabeleça uma hora por dia para o seu treino, não negocie essa hora. Não há quem não tenha uma hora improdutiva durante o dia de trabalho ou no intervalo do trabalho. Pronto! Essa é a hora destinada para a atividade física. 
Faça pactos com quem você ama.

Quando estabelecer uma meta na sua vida - seja no que for, na corrida, no trabalho, na vida acadêmica – compartilhe e faça pactos com quem você ama.

Falar suas metas para as pessoas queridas fará com que você mentalize a responsabilidade de cumpri-las e o medo de decepcioná-las será um combustível permanente.

Isso serve pra coisas simples e complexas da vida.

Quando decidi parar de beber, fiz pactos com pessoas queridas. 

Antes de correr os 20km, disse para meu professor Rogério e para várias pessoas queridas e amigos de treino que correria 20km. Esses pactos me deram muita força quando o corpo já sentia um extremo cansaço.

O pacto com quem amamos gera o medo de decepcionar e isso manda comandos poderosíssimos para o cérebro que nos fazem seguir em frente e não desistir. 

Superação de Limites e Felicidade

O mais bacana dessa história toda é que, com FOCO e DISCIPLINA, o verbo DESISTIR deixará de existir na sua gramática, você superará limites inimagináveis e aprenderá a felicidade de descobrir que sua mente, seu coração e seu corpo são muito mais capazes do que você imagina.

Você aprenderá que sua mente pode ser movida por bons sentimentos e por pactos com quem você ama, que seu coração é capaz de bater num ritmo cadenciado pelo amor e pelo respeito às pessoas e que seu corpo é uma fortaleza capaz de superar desafios prazerosos e outrora inacreditáveis.

Homenagem

Após o primeiro post recebi muitas mensagens bacanas. Todos os dias vou publicar uma desses mensagens.

Hoje vou publicar a mensagem do meu querido amigo Paulo Almeida, exemplo de dedicação, foco e disciplina. O homem é um monstro. Perdeu 25 kg em 5 meses. E perdeu com saúde, o que é mais importante.

“Excelente post! Parabéns Marcelo, realmente essa decisão de mudar a rotina parece ser difícil mais os ganhos são incríveis, estou sentindo tambem essa mudança, estou hoje com - 25kg, isso até 5 meses atras era IMPOSSÍVEL, gostei demais e finalizo com sua frase A fórmula é simples: FOCO + DISCIPLINA = SUPERAÇÃO DE LIMITES + FELICIDADE. Abraço!”

A falta de descanso é um caminho pra desistência

Essa semana fiz funcional todos os dias da semana e corri no sábado. Hoje é o meu dia de repouso. E é sobre a necessidade de repouso e de exercitar também a mente que falarei amanhã.

O EXERCÍCIO DA MENTE É A MÚSICA, A POESIA E A LEITURA. O SUOR DA MENTE É O SABER.

Como a corrida ajudou a mudar a minha vida.

20 de outubro de 2012 | Comentar

Hoje durante a minha corrida matinal decidi escrever um blog sobre as minhas experiências com a atividade física e como elas influenciaram e, em certos casos e momentos, até mudaram a minha vida.


Hoje fiz 20km e, para isso, precisei correr 2:17:13 sem parar. Deu tempo pra pensar em muita coisa, inclusive na ideia desse blog e do papel que a atividade física, em especial, a corrida exerce na minha vida.

Durante muito tempo fui atleta de voleibol – quando alguém com 1,73m ainda podia jogar voleibol fora da posição de líbero, criada quando eu já não jogava mais. O vôlei como, em regra, os demais esportes exigem concentração na partida. Ocupam a mente e nos afastam dos problemas e dos assuntos do dia-dia.

Na corrida é diferente. Durante uma corrida dá pra encontrar uma solução de trabalho, pra lembrar um bom filme, pra pensar sobre um livro, pra refletir sobre a vida, sobre a família, dá até pra decidir escrever um blog e definir os temas que serão abordados no primeiro texto.
Na minha experiência, a corrida não me fez fugir dos meus problemas, ajudou-me a enfrentá-los.

Assim, foi na corrida de hoje. Corri só e, logo nos primeiro quilômetros, não consegui mais configurar a música no celular. Dizem que tem mal que vem para o bem. A falta de companhia e de música permitiu que eu pudesse a cada metro refletir sobre as decisões que tomei na minha vida e como a atividade física ajudou e influenciou nelas.

Ainda no primeiro quarto da corrida fui tomado pela ideia desse blog e daí em diante ela me acompanhou por mais de 15 Km. O que escrever, como escrever, quais experiências na minha vida estão relacionadas à atividade física.

Lembranças remotas: a paixão pelo voleibol aos 12 anos como mecanismo de superação da morte prematura e súbita do meu pai. Lembranças atuais: a decisão de parar de beber e como a corrida consolidou essa decisão.

É engraçado. Na corrida ouço meu pai, aconselho meu filho, reflito sobre minha família, fortaleço minhas convicções na vida pública e reafirmo a cada novo desafio que o verbo DESISTIR não existe na minha gramática da corrida e da vida.
São essas experiências que quero compartilhar com os meus leitores e amigos.

Como começou?

Após publicar no meu facebook que hoje corri 20km. Recebi o comentário de Kelly Moraes Alves perguntando: Como você começou Marcelo? Teve algum acompanhamento?
A pergunta me fez refletir e vou tentar responder.

O começo é a DECISÃO! 

Eu hoje posso correr 20km porque decidi colocar a atividade física como prioridade e como algo prazeroso na minha vida.
Mas pra não ficar só no óbvio, vou contar uma história.

Eu sempre gostei de atividade física, como já relatei, fui atleta de voleibol, jogava meu futebol no final de semana, ia à academia. Mas a política, o trabalho e o happy hour (bebida) com os amigos sempre estavam à frente da atividade física na minha ordem de prioridade, ou melhor, sempre eram usados como desculpa para a minha indisciplina.

Aos 38 anos, sem perceber, estava com 92 quilos (tenho 1,73m), cara inchada e cada dia mais sem disposição para a atividade física, trocada por tudo, principalmente pela bebida com os amigos. Hoje quando vejo as minhas fotos de um ano atrás tomo um susto. 

Ai veio a DECISÃO. 

Não vou aqui relatar os motivos porque são de natureza íntima e familiar, mas acordei no dia 14.08.2011 e disse para todas as pessoas que amo (familiares e amigos) que não beberia mais até o dia 31.12.2011.

Não foi preciso mais que o primeiro final de semana pra perceber como a decisão era correta e como ela mudaria a minha vida.
Todas as sextas no final da tarde, reunia em um bar com os amigos. Não fugi. Fui para o bar encontrar com os amigos. Como uma diferença. Apesar das brincadeiras e pressões da turma, só tomei guaraná zero. Depois jantei com a esposa. Fui pra casa. Li boa parte de um livro. Acordei as 6h da manhã e fui correr na Ponta Negra, como hoje. A tarde ainda tive disposição de ir pro kart com meu filho. 

Estava ai a grande diferença.

Minhas sextas eram sempre divertidas com a turma de amigos e a bebida. Sempre dormia feliz. Mas quando eu acordava a felicidade que dormira comigo não estava mais lá, tinha se transformado em ressaca, confusão com a família, indisposição para a leitura, para o trabalho e pouca qualidade na convivência com o meu filho.

Já naquele final de semana, percebi que a felicidade que dorme, agora também acorda comigo.
Não deixei meus amigos – hoje eles já respeitam minha decisão de não beber -, não parei de ir ao bar tomar meu guaraná zero. Mas agora eu tinha metas. Queria ter uma convivência melhor com as pessoas que amo.  Queria emagrecer e correr bem 10km.

Pronto. Beber e dormir muito tarde não combinavam com as minhas metas.

Corri 5km. Depois corri 8km. Depois corri 10km. Depois queria correr 10km em menos de uma hora, consegui! Um dia decidi tentar 15km, consegui! Hoje, decidi tentar correr 20km e também consegui! Agora, até o final do ano, uma meia-maratona – só falta 1km, já que corro 20km e a meia é 21km  e uma maratona (42km) até o final do ano que vem.

Claro que nessa decisão e no cumprimento das metas foi fundamental o apoio especializando dos professores Fio, Chesco e Rogério. Mas, sem a DECISÃO, nada teria acontecido.

Você deve tá curioso porque lá atrás disse que não beberia apenas até o dia 31.12.2011. Portanto, como bom bebedor, não perderia aquele revellion de 2012 por nada. Mas foi ai que veio a nova DECISÃO.

Fiz duas listas em uma folha em branco. Uma com o que ganhei e outra com o que perdi ao parar de beber. Sabem o que descobri? Que ganhei muito mais do que perdi. Decidi não beber nunca mais!

Isso não é uma crítica a quem bebe e nem uma pregação contra a bebida. É apenas o relato de uma experiência.
Foco e disciplina

Na corrida, como na vida, não existem limites para quem tem foco e disciplina. A fórmula é simples: FOCO + DISCIPLINA = SUPERAÇÃO DE LIMITES + FELICIDADE.

Lições da Minha primeira Maratona

10 de setembro de 2013 | Comentar

Difícil explicar o porquê de correr uma maratona, porque impossível explicar em palavras a sensação de cruzar a linha de chegada depois dos 42,195km ou 4h, 22min e 18seg correndo sem parar e sem caminhar. Nem mesmo sei dizer em que momento da minha vida decidi correr uma maratona. Isso não fez parte dos meus planos por 39 anos.


Na verdade, não decidi correr uma maratona! Decidi viver. Decidi ser feliz de verdade. Decidi experimentar sentimentos duradouros em substituição aos efêmeros de outrora. Decidi resgatar e construir amizades verdadeiras, solidárias, desinteressadas. E por decidir tudo isso, corri uma maratona.

Acumulei forças com os treinos é claro – ninguém corre uma maratona sem treinar e se preparar para isso – meu corpo sentia-se preparado para o desafio. Mas forte mesmo estava a minha mente. Forte pelos ensinamentos que busquei com pessoas queridas, como meu Tio Gilberto que aos 60 anos completou sua 10ª maratona e com quem estarei no dia 26.01.2014 na Maratona das Ilhas Canarias-Espanha, como meu amigo Helso do Carmo (o Mestre) que dividiu comigo sua dura experiência da primeira maratona, e também com ensinamentos ouvidos na palestra Limites Extremos do jornalista Cleiton Convervani. 

Eu sabia que terminaria a prova, porque quando comecei a correr aprendi duas importantes lições para a corrida e para a vida: não estabelecer metas impossíveis (o impossível é conjuntural – correr 100km pra mim hoje é impossível, mas correr 42 também era há alguns meses) que o desestimule e nem fáceis demais que você possa cumprir sem esforço. O primeiro erro gera frustração. O segundo tira valor da conquista.

Portanto, seus desafios na corrida e na vida devem ser, por um lado, possíveis, diante da realidade em que você os estabelece, e, por outro, sacrificantes para sua consecução. Assim era pra mim a Maratona.

Treinei com certa disciplina. Digo certa disciplina, porque não consigo cumprir planilhas. Correr pra mim é um prazer que me esforço pra deixar distante de qualquer obrigação. Portanto, cumprir planilhas, pode significar correr 5km quando meu corpo e minha mente pendem 10km, ou 20km quando meu corpo pede 5km. Além do mais, as planilhas mandam descansar mais do que meu corpo quer descansar. Entre alcançar um resultado melhor e ser feliz correndo. Escolhi ser feliz. Corro à toa...

E fui à toa que corri minha primeira Maratona.

Quando me inscrevi registrei o tempo estimado de 5h. Com o andamento dos treinos e após fazer um treino de 32km num percurso muito duro (Tropical-Ponte-Retorno Cacau-Pirera-Ponte-Tropical) em 3h e 32min, considerei concluir a prova próximo de 4h e 30min.

O dia 07.07.2013 amanhã com um céu brilhante e, como me hospedei em um hotel no local da largada, pude abrir a janela e ver a paradisíaca vista do nascer do sol, da Praia e da pedra imensa que completa o cenário da praia no Recreio dos Bandeirantes. Paisagem natural ornamentada por corredores de todas as formas e todas as cores, criando um mosaico de raças, naturalidades e nacionalidades, unidos pelos laços da corrida. Parei na sacada do hotel e por alguns minutos observei aqueles movimentos, onde uns aqueciam, outros tiravam fotos, casais, pais e filhos, todos movidos por um sonho inexplicável de simplesmente correr...

Meu amigo Helso (o Mestre) diz que o ser humano é o único animal capaz de correr 42km sem parar... E lá fui eu para os meus 42km...

A largada pontualmente as 7:30h sob um céu azul e um sol que, se não maltratava, aquecia já nos primeiros metros. 21km de reta acompanhando a bela paisagem da Prainha e depois da praia da Barra. 

Nos primeiros quilômetros alguns quiosques de praia com jovens virados ainda bebendo. Essas imagens são sempre presentes nas minhas corridas. Eu que já vivi dos dois lados, pus-me a pensar o quanto nós que estávamos correndo achávamos ridículo aquela turma bebendo até de manhã e, da mesma forma, ainda que por motivos inversos, o quando eles achavam ridículo um bando de besta correndo sem qualquer razão aparente. Sem julgamentos... um pouco de razão pra cada...

O km 21 marcava a largada da meia-maratona e ali senti-me forte e capaz de acelerar um pouco o ritmo. Logo após a primeira subida – como corro bem nas subidas – onde acelerei mais um pouco para logo depois deparar-me com a vista da Niemeyer. 

O fim do mar azul que nos acompanhou por toda a Niemeyer não era mais distante que a linha de chegada, mas agora lembro que em nenhum momento dos 42km pensei na linha de chegada. Simplemente, corri e corri e corri. 

Lembrei que existem caminhadas que são tão belas e prazerosas que a chegada vira um mero detalhe, muito menos importante que as sensações, vitórias, alegrias e frustrações do caminhar. O percurso deixa de ser um instrumento pra chegada e passa a existir em si mesmo. Acho que por isso correr essa prova foi tão prazeroso.

No correr desses 42 km encontrei meu pai Umberto e minha filhinha Maria Carolina, encontrei e ignorei meus medos e minhas frustrações, chorei, sorri, abri os braços e agradeci a Deus pela minha vida. 

Sempre me alertaram da dureza dos 30km e eu entendi o porquê. Foi pouco antes do trigésimo quilometro em mais uma subida que pude entender a dureza de uma maratona e sentir porque o homem é o único animal capaz da proeza de correr 42km.

Aquela subida começa a mudar o cenário da corrida que até ali era de tranqüilidade, diversão e até muita conversa, mas subitamente passa a ser marcado por alguns gritos de dor fruto das câimbras, por alguns corredores no chão estafados ou na calçada fazendo alongamento para seguir em frente e pelo doloroso som da sirene da ambulância num vai e vem desesperador.

Senti medo das câimbras, mas como elas não vieram, e sentia-me forte física e mentalmente apertei um pouco mais o ritmo e surpreendi-me ao encostar no corredor identificado com a camisa do Pace 6 (os organizadores da prova colocam alguns corredores experientes como coelhos para ditar o ritmo da prova e esse ditava em 6min cada quilometro percorrido). Perguntei a ele qual o tempo de chegada naquele ritmo e ele me disse 4h e 12min. Percebi que faria uma prova bem melhor que planejei e isso me fez ainda mais forte.

Ipanema e Copacabana são momentos duros da prova já com mais de 30 km, mas compensados pelas palavras de incentivo da população, por cartazes de crianças, filhas e filhos, com palavras de incentivos para suas mães e pais. Tenham certeza, aqueles cartazes não estimulam só os destinatários das mensagens. Pude ver o Gabriel e até a Marcelinha com os seus cartazes escrito: Vamos, Pai! Você vai conseguir! Você é o meu campeão. E segui em frente...

O final de Copacabana marcava os dois ou três quilômetros finais e foram os mais duros. O túnel, o Rio Sul, a sede do Botafogo e finalmente o aterro do Flamengo. O ritmo era bem mais lento, a musculatura da perna muito cansada e dolorida, uma estranha dor na parte interna do cotovelo e na sola do pé direito acompanharam-me nesse trecho final. Ainda assim não pensei na chegada, tão entusiasmado que estava com o “caminhar”.

Após contornar o Aterro do Flamengo já podia ver o portal de chegada, um visão que tomava minha alma por sentimentos de alegria e superação. Recebi do meu amigo Geraldinho Sobral (que correra a meia-maratona) a bandeira do Amazonas que levei, especialmente para isso, e com ela cruzei a linha chegada.

Chorei e pude dar um abraço na minha Tia Teodósia (irmão do meu falecido pai) que me esperava na linha de chegada.

Por que corri? O que senti? Talvez nunca consiga explicar plenamente. Mas corri por mim, para ter certeza de que fiz a escolha certa ao trocar a bebida pela corrida. Corri pela minha família, para mostrar o bom exemplo de uma vida saudável. Corri pelo Amazonas que represento para poder cruzar a linha de chegada com a bandeira do nosso Estado. Corri por tudo que amo na vida. Corri pela minha história, pela minha felicidade, pelo meu destino. Corri por amor á vida e as pessoas. E seguirei correndo...

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SOBRE O BLOG

O esporte e a atividade física sempre estiveram presentes na minha vida. Desde o futebol de moleque descalço na rua até os anos dedicação ao voleibol que me levaram a ser o levantador da seleção ... LEIA MAIS

MARCELO RAMOS

Advogado pós-graduado em Direito Processual Civil, deputado estadual e autor dos livros "Nossa Luta Diária" e "Velho Baú".

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